O Louco

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Era chamado de Seu Zezinho. Andava perambulando pela rua. Não tinha casa e não tinha família. Ou tinha e a gente que não sabe né? Falava sozinho. Mas quem não fala sozinho? Tá, mas Seu Zezinho falava sozinho na frente de todo mundo e falava alto. Nem se importava quem o estava ouvindo ou quem o estava vendo. Por isso consideravam – o louco. Sei disso porque vivo a andar de ônibus e ele vive andando pelos pontos fazendo as suas pregações. Certo dia, depois de não querer mais nada de estudar e pensando na minha vida, estava eu esperando o meu ônibus e testando os meus níveis de paciência (pessoas que entram na sua frente e não deixa você ler o nome do destino do ônibus, gente vendendo balas, paçocas, doces e sei lá mais o que…). Pois bem, estava eu no ponto de ônibus e “o louco” aparece e começa:
– Ciúme é uma coisa que leva você ao desespero. Você liga o dia inteiro pra pessoa, a coloca em um cárcere privado e nem percebe. Você é capaz de roubar ou fazer algo muito pior por causa de ciúmes. E se a pessoa acha ruim, você acha pior ainda se ela reclamar. Acha que ela está te traindo e “dana” a fazer coisas inexplicáveis pela ciência. E paixão então… No começo ela é sempre assim arrebatadora. Te deixa dias a pensar na pessoa, tudo te faz lembrar daquela pessoa que você é apaixonada. Seja uma letra de música, um cheiro, uma foto, um filme, uma fala ou até mesmo uma palavra. Te faz escrever cartas de amor, escrever música, dançar pelado no meio da rua, comprar algo caríssimo ou até mesmo em pular da ponte.
Sei lá se é coincidência ou mesmo se o seu Zezinho falou isso por causa do noticiário, mas lembrei que a mídia regional nesses últimos dias que fez total cobertura de uma linda garota que se jogou da ponte depois que tentou reatar com o ex-namorado e não conseguiu porque viu que o menino estava com outra. Ela é louca de fazer isso. A vida, um bem tão precioso para ficar se jogando fora assim, sem mais e nem menos. Paixão dá e passa… Amor não. Amor é outra coisa. Amor fica. Amor não passa. Não vamos dizer que paixão é ruim né. É tão bom a gente se apaixonar por alguém e ficar com o batimento cardíaco acelerado ou suar frio quando a pessoa está por perto. Mas amor é muito melhor. Porque também não existe só amor entre mulher e homem. Existe entre mãe e filha, pai e filho, irmã e irmão, neto e avó, tia e sobrinho… E um dos mais bonitos que tem é o amor de amigo. Aquele que dura a eternidade. Já paixão, ah, é ótimo ter ela como companheira…
Se a menina ainda tivesse viva (que Deus a tenha) eu chegaria e daria um toque nela. Morreu jovem. Não sabia a vida que tinha pela frente. Poderia ser uma das melhores cantoras nacionais ou ser uma renomada médica. Mas, infelizmente, ela não sabe o bem precioso que perdeu.
Me vi de volta a realidade quando uma senhora passou e parou na minha frente me atrapalhando a visão. É… Acho que, a partir desse dia, possuo um novo recorde no meu teste de paciência. Antes eu durava menos. Em pouco tempo perdia a paciência e já fazia alguma coisa que não fazia parte da minha educação familiar. Mas, me surpreendi. Bem, me levantei com muita calma (afinal, para se conseguir alguma vitória são necessários alguns sacrifícios e eu não ia jogar no lixo o meu maior tempo que eu já tinha tido na minha vida em que fora paciente) e avistei o meu ônibus que já estava vindo. Que bom, ia embora pra casa e deixar o louco para trás.
Entrei no ônibus e um novo pensamento me veio à cabeça: “Se pudéssemos medir o grau de loucura das pessoas não teria tanta certeza se Seu Zezinho seria tão louco assim… Talvez a menina?”.

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