Confissões de Pai

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–  Sei que ela é uma menina, e que nessa idade é normal se apaixonar, mas isso está ficando fora de controle!

Gabriel suspirou como resposta e limpou o suor que se acumulara em sua testa reluzente. Fitou-se no vidro escuro da porta do micro-ondas e perguntou-se mais uma vez como o tempo passara tão depressa. Há pouco era um moleque, correndo atrás de pipas, cabulando aulas, fugindo das broncas de sua mãe. Como de repente tornara-se pai? As rugas de preocupação já eram aparentes, e, assim como seu pai, o cabelo parecia fugir-lhe da testa.
A mulher continuava a tagarelar e a reclamar na mesa atrás dele. Gabriel virou e mirou sua esposa que tomava uma xícara de café. Adriana também não era como antes. Agora, seus negros cabelos ganhavam fios grisalhos e seus olhos já estavam contornados de olheiras. Lembrou como tinham se conhecido em sua tenra infância, aos oito anos, num parque de diversões. Era uma garotinha bonita, sempre de tranças em seus negros cabelos e sardas que a davam um ar de ingenuidade, o que se opunha à sua verdadeira natureza. Foi a menina de aparência doce e grandes olhos amendoados que o levou a conhecer muitos dos puros prazeres infantis. Ela que o ensinou a remar, escalar muros altos, andar a cavalo, roubar frutas sem ser pego. Eram muitas as aventuras que já tinham juntos vivido. E talvez agora estivessem enfrentando a maior delas: serem pais de uma adolescente.

–  Gabriel, você bem que podia opinar!- reclamou Adriana, impaciente. A mulher sempre lhe cobrara atitudes que nem o próprio saberia tomar. Às vezes achava-se incapaz de ser um adulto responsável, um pai de família – Eu sei que é difícil já que é a primeira vez que passamos por esse tipo de situação, mas podemos juntos discutir uma maneira de, não sei, talvez aceitar, conciliar, ou… Ah!

A mulher levantou-se e caminhou até Gabriel. Ela o abraçou da mesma forma que sempre o abraçara, deixando que sua cabeça descansasse sobre o ombro do marido. Antes de tornar a falar, suspirou profundamente e beijou o pescoço de Gabriel.

–  Meu amor, eu preciso de ajuda.

Gabriel permaneceu em silêncio. “Eu também”, pensou, mas não quis dizer à mulher. O que ela responderia? Que ele era um imaturo, apesar dos quarenta anos vividos, e que ele nunca sabia lidar com os próprios sentimentos? Mas isso era uma fato. Para que os dois namorassem foi necessário que Adriana se declarasse primeiro. Antes mesmo que Gabriel descobrisse o que era amor, ela já dizia sentir por ele. Antes mesmo que ele pensasse no próximo passo após descobrir que sentia o mesmo, ela o propôs namoro. Antes mesmo que ele pensasse na possibilidade de casar-se, ela já havia o levado para o altar. Sua vida só tomou aqueles rumos por causa dela. Se não fosse por ela talvez ainda estivesse morando com a mãe. Nunca aprendera a se decidir por si mesmo e nunca tinha uma opinião formada sobre algum assunto.
Sua filha de catorze anos estava apaixonada por um garoto da escola e, diferente da mãe, ela chorava compulsivamente por acreditar não ser correspondida. Ele nunca soube lidar consigo mesmo, e nunca saberia lidar com os outros. Sua família​ era seu bem mais precioso, tinha certeza, mas não sabia como proceder diante das situações.

-Eu não sei.- fraquejou. Deixou que as lágrimas banhassem seu rosto, se mostrou como realmente era. Envergonhado, admitiu:- Não sei o que fazer.

-Eu também não sei, meu amor.- disse a mulher, afagando seu rosto. De repente, ela afastou-se, para olhá-lo nos olhos. Só então percebeu que ela também chorava. -Vamos aprender juntos.

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