A “mulher-gari”.

Publicado em Publicado em Crônicas

O ano era 2006, a rotina era acordar cedo, acordar as filhas, preparar tudo para o trabalho e para a escola. Mal acabara o verão e a quente Cachoeiro nos acordava com um vento forte, fazendo das manhãs ensolaradas, paradoxalmente, mais amenas. Era um corre-corre, uma “guerra” para o uso do único banheiro da casa. Filhas, mãe, pai, cada um cuidando das suas responsabilidades.

Pronto! Pai e filhas no carro, preparados para o rotineiro trajeto rumo ao trabalho e à escola. Foi a primeira vez que vi Dona Tereza, cujo nome só descobri meses depois, nos arredores do bairro Nova Brasilia, com alguma dificuldade de locomoção, a varrer as “beiras” da Avenida Aristides Campos, bem como as calçadas. Como me chamara atenção aquela mulher. Logo cedo, com a vassoura em punho e, não muito longe dela, uma pá e um saco de lixo que, pude observar, já estava pelo meio cheio de folhas, papéis diversos, e, por certo, muita terra.

A partir desse dia,  dia após dia, era certa aquela imagem no meu trajeto para o trabalho. Minhas filhas, com o passar do tempo, já ficavam espiando na janela do carro quando chegava o local onde estaria D. Tereza com sua vassoura a varrer e varrer… Um dia Íris, a primogênita, exclamou:

– Olha papai! A mulher varredora de rua! A mulher-gari!

Respondi:

– Não Íris, ela não é gari. Se fosse deveria estar uniformizada. Ela apenas varre a rua por conta própria.

– Mas por que alguém varre rua por conta própria? Sem ganhar nada?

Eu não a respondi.

Depois de um bom tempo, aconteceu algo que mudaria minha vida. Pois bem, já não podíamos ver D. Tereza a varrer a avenida. Por dias, semanas… Incrédulo fiquei quando minhas filhas me disseram que estavam tristes porque não podiam mais ver a “mulher gari” a varrer a rua e as calçadas.

– Eu gostaria de conversar com a “mulher gari” papai.

Foram as palavras da Carolzinha, sucedidas de um suspiro.

Aquilo ficou na minha cabeça. Afinal, eu também queria conhecer aquela mulher. Tinha muitas perguntas a lhe fazer. Em casa, no trabalho, com os amigos, com minha família, invariavelmente me vinha a imagem da “mulher gari” na minha mente.

Então tomei a decisão. Numa segunda-feira eu deixei as meninas na escola e não fui para o trabalho, como de costume. Voltei para a Aristides Campos, estava determinado a saber notícias da “mulher gari”, como disse Íris uma certa vez.

Ora, acredite, não precisei gastar muito meu latin. Estacionei o meu carro e entrei na primeira loja, das muitas que haviam pela grande avenida. Quando me apresentei a um vendedor de móveis e comecei a falar o motivo de eu estar alí, ele, cortando minha fala, exclamou com um sorriso:

– D. Tereza! (foi a primeira vez que ouvi o nome dela) O senhor está falando de D. Tereza!

Moradora do bairro há muito tempo, 66 anos, viúva, professora aposentada, mãe de filho único, 3 netos. Fiquei sabendo de praticamente tudo sobre a “mulher gari”. Inclusive da queda que sofrera já fazia um mês. Estava em casa, de repouso, impossibilitada de se locomover, pois quebrara o fêmur direito.

– Que tristeza!

Foi o que ouvi de Íris quando contei toda história que tinha acabado de saber naquela segunda-feira. E continuou:

– Papai, vamos lá visitá-la! Vamos?

Não foi difícil conseguir o endereço. Já conhecia meu amigo vendedor de móveis. Voltei lá e consegui o endereço. Fomos lá, eu e minha família.

Chegamos no endereço. Toquei a campainha. Todos nós estávamos um pouco tensos e ansiosos por conhecer a “mulher gari”. Quando uma jovem abre a porta e nos atende. Apresentei minha família e disse o motivo de eu estar lá. A jovem sorrindo nos convidou a entrar e nos encaminhou até o quarto onde estava D. Tereza que nos recebeu com um sorriso no rosto. Nos apresentamos e, então, contei-lhe toda a história. Ela ouviu tudo atenta, sem dar nem um pio. Foi quando Íris quis saber:

– Por que a senhora varria a rua todo dia? Sem ganhar nada por isso?

D. Tereza respondeu:

– Minha querida, eu ganhei sim! Ganhei a satisfação de chegar em casa e saber que fiz minha parte!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *